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Uso de minerais em dietas de pássaros exige cuidado

Durante minha vida profissional ministrei mais de uma centena de palestras para os mais diversos grupos; profissionais, estudantes, criadores e lojistas. É fascinante a quantidade de informações trocada com os mais diversos segmentos, desde profissionais da área com notória expertise técnico-científica, até pessoas com pouco conhecimento científico, mas enorme experiência prática e senso de observação.

Um dos fatos inusitados que me recordo foi uma pergunta de um pequeno mantenedor de Pássaros: “meu curió está com constantes problemas de bico ressecado e fraco. Por isto acho que estou dando pouco cálcio para ele. Gostaria que o senhor me informasse se 10% de farinha de ostra grossa na semente, 1 ml de suplemento de cálcio líquido por bebedouro e uma pedra de cálcio disponível na gaiola é suficiente para corrigir essa deficiência”. Diante da pergunta, fiz uma rápida conta e percebi que o inocente criador deveria estar fornecendo quase 10% de cálcio na dieta do pobre pássaro que, obviamente, continuava com seu problema de bico e, provavelmente, com outros problemas ocasionados pela prática equivocada.

Existe uma confusão muito comum entre leigos ao se pensar que o cálcio é importante para a formação de bicos e unhas. Entretanto, este mineral não tem qualquer participação no processo, cujo principal protagonista é a proteína. Obviamente, no processo de formação do bico há também participação fundamental de muitas vitaminas e minerais, especialmente a vitamina A e o zinco. Assim, uma dieta constituída apenas de sementes pode sim prejudicar a formação dos bicos, mas jamais em decorrência da falta de cálcio presente nas mesmas.

O excesso de cálcio pode produzir alguns problemas para os animais. Sabe-se, por exemplo, que o cálcio prejudica a absorção de alguns outros minerais. Ironicamente o zinco faz parte desta lista, justamente um dos minerais importantes para a formação de bicos sadios. Vejam, portanto, que o criador em questão, na tentativa de resolver o problema do bico, estava provavelmente piorando a situação ao diminuir ainda mais a disponibilidade do zinco na dieta.

As interações antagônicas e sinérgicas entre minerais, como a exemplificada acima, são muito comuns. O fornecimento de minerais em uma dieta deve ser muito bem controlado, pois não somente a falta como também o excesso de um mineral pode comprometer a absorção e disponibilidade de vários outros. Como outro exemplo, sabe-se que o cobre incrementa a absorção do zinco, porém o excesso de zinco age de forma antagônica ao bloquear os sítios de absorção do cobre.

Felizmente, hoje algumas empresas de ponta na produção de alimentos para animais utilizam os minerais quelatados. O uso destes minerais orgânicos tem sido uma importante ferramenta para anular essa complexa interrelação entre os minerais inorgânicos. Minerais quelatados são produzidos pela ligação com aminoácidos (componentes das proteínas) diversos. No estado quelato, o metal torna-se quimicamente inerte, ficando livre não somente da influência de outros minerais presentes na dieta, como também de fibras e gordura, que também podem prejudicar a absorção de minerais inorgânicos.

Paralelamente, ocorre uma alteração do processo de transporte do mineral para dentro do organismo animal. Estando ligado a um aminoácido, sua via de absorção é totalmente diferente e muito mais eficiente. Assim, quase 100 % dos minerais quelatados são absorvidos pelo organismo. Para completar, uma vez dentro do organismo, esses minerais agem de maneira muito mais eficiente, já que o aminoácido ligado a ele age como um torpedo teleguiado para levá-lo onde ele é necessário.

Por todos esses motivos expostos acima, os minerais quelatados vem se destacando cada vez mais na nutrição animal do mundo inteiro. Alguns nutricionistas alegam que em um futuro próximo serão as fontes de microminerais de eleição em função dos diversos benefícios que produzem. Entretanto, devido a seu alto custo, quando comparados com fontes inorgãnicas, ainda têm sido encontrados apenas em alimentos de alta qualidade e valor agregado.

Deste modo, as relações de antagonismo e sinergismo entre minerais, vitaminas e outros nutrientes são delicadas e minuciosas, devendo ser consideradas com cuidado quando da formulação de dietas. A utilização de um único mineral ou mesmo de suplementos deve ser avaliada cuidadosamente, em suas funções e objetivos do criatório, além de ser importante uma avaliação em relação à dieta utilizada no momento da suplementação. A não consideração destes pontos podem colocar em riscos a saúde e desempenho das aves.

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